Sobre nossa criança ferida. Preciso de um adulto e agora?

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Nosso desenvolvimento emocional não acontece no mesmo tempo que nosso desenvolvimento intelectual. Preciso de um adulto e agora?

Podemos assim ser muito “adultos” quanto aos compromissos concretos de nossas vidas, mas o modo como lidamos com as adversidades pode ser muito distante, defasado, e até incoerente diante de tantos conhecimentos que já conquistamos.

É como se estivéssemos estacionados em alguns pedidos lá de quando éramos crianças, e que secretamente ainda aguardássemos alguém vir supri-los. E é tão secreto, antigo, que nem percebemos mais sua presença.

Ficamos tão surdos a estes pedidos, porque o tempo da vida solicita nossa ação, que já nem identificamos que nossos sofrimentos muitas vezes nascem deles.

O modo como essa carência se manifesta só se torna visível para os outros, e na nossa imensa cegueira, ficamos reativos: seja na rebeldia constante, seja na vitimação, na autossuficiência ou na indiferença.

A questão é que nossa reatividade atrai a reatividade do outro, e assim, a criança de cá convida a criança do outro, e nos vemos em situações de difícil solução.

Queremos que algum adulto venha resolver o que “estamos crianças” para lidar. Por isso queremos que os entes queridos “tomem partido”, sejam juízes, que haja punição e premiação, que haja o culpado e o inocente.

Assim, dissensões familiares e/ou profissionais vão tomando dimensões desproporcionais aos fatos que seriam tão simples de resolver.

Adultos acolhem, adultos administram, adultos criam estratégias de ação, adultos relevam e tem visão de alcance.

Crianças querem ser acolhidas, sentem-se rejeitadas, ficam assustadas com o tamanho dos problemas, não vêem saídas, crianças não cedem porque não querem perder, e sua visão ainda se restringe somente ao imediato.

Onde costumamos habitar quando as crises chegam?

Fixarmo-nos em comportamentos de criança é considerar que nossa alma ainda não tem força o suficiente para se apropriar da vida adulta e, portanto, nos recusamos a empunhar os movimentos necessários que a vida, e até nós mesmos, esperamos de nós.

Já que não somos nós quem tem de agir, fazemos muitas cobranças veladas ou não, a respeito do comportamento dos outros.

Não raro, tornamo-nos tão exigentes que o amor dos outros não consegue nos alcançar, pois só autorizamos o afeto chegar se for do jeito como desejamos. Jeito esse que não se atualizou no tempo e tomou uma forma cristalizada, detalhada e tão especifica, que adulto nenhum consegue adivinhar.

É preciso nos libertar de tantas exigências…

E para tal, o primeiro passo é estancar a exigência para com os outros e refletir um pouco, sozinho.

É que estas expectativas que queríamos que tivessem sido atendidas durante a nossa infância. Agora precisam da nossa atenção, do nosso olhar.

É como se agora, adultos fortalecidos, pudéssemos olhar para nós mesmos e dizer: “agora eu posso ver você”. Sinceramente “eu estou aqui para você”, “o que você quer de mim?” ou “o que eu posso fazer por você?”

E quando isto for possível pra nós, essa exigência tenderá a diminuir, pois este cuidado consigo mesmo traz saciedade emocional. Quando “visto” asserena o desespero, ouvido, atendido e a paz no coração já pode chegar.

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